Luciene Burlandy1*
Os programas de suplementação alimentar voltados para
crianças e gestantes constituem componentes importantes de
estratégias de combate à pobreza. Mesmo sob um patamar
semelhante de insuficiência de renda, a situação de
vulnerabilidade das famílias pobres se diferencia, de
acordo com suas capacidades em utilizar a renda de que dispõem
e com a composição familiar. Essas condições serão
fortemente afetadas pela idade (necessidades especiais dos
mais velhos e mais novos), localização geográfica (que
determina vulnerabilidades específicas, como acesso a bens
e serviços), atmosfera epidemiológica (riscos de doenças
endêmicas e crônicas) (SEN, 1992), além da presença de
indivíduos em risco nutricional, especialmente crianças.
As ações públicas destinadas a aliviar as conseqüências
adversas da pobreza, no entanto, vêm atingindo
prioritariamente os segmentos da população com maior nível
de renda e os programas de suplementação alimentar não
escapam dessa distorção (PELIANO,1990). Estudos recentes
sobre o Programa de Alimentação do Trabalhador e o
Programa Nacional de Alimentação Escolar sinalizam que os
segmentos de renda mais alta têm maior acesso aos programas
e que o acesso é menor nas localidades onde a
disponibilidade de serviços é menor e as vulnerabilidades
sociais e em saúde são maiores (BURLANDY & ANJOS,
2001; 1999).
Os programas que se operacionalizam por meio da rede de
saúde são indicados como mais adequados em termos de
focalização, quanto à pobreza e à vulnerabilidade biológica
(PELIANO,1990). Isso se deve ao fato, dentre outros, de
serem, em geral, destinados às famílias com crianças e
gestantes (que são extremamente vulneráveis econômica e
biologicamente) e de utilizarem critérios biológicos na
seleção dos beneficiários (um indicador mais objetivo e
confiável, que possibilita destinar as ações aos grupos
com maiores chances de resposta às intervenções), além
de potencializarem os efeitos sobre a saúde dessas famílias,
pelo atendimento prestado nas unidades básicas.
No objetivo de indicar os principais desafios que hoje se
colocam para esse campo, identificando possíveis razões
para o não-alcance dos grupos mais vulneráveis, este texto
recompõe a trajetória de programas de suplementação
alimentar, destinados ao segmento materno-infantil e
implementados na década de 90 pelo Ministério da Saúde
(MS).
Breve panorama
Os principais programas nutricionais do MS voltados para
a população materno-infantil na década de 90 foram o
Programa de Combate à Desnutrição Materno-Infantil (PCDMI/1993–1997)
e o Incentivo ao Combate às Carências Nutricionais (ICCN/1998).
O objetivo era atender crianças desnutridas (6 meses a 2
anos), seus irmãos até 5 anos e gestantes em risco
nutricional, por meio da distribuição de leite e óleo de
soja, cobrindo mais de 100% das necessidades protéicas e
60% das necessidades de energia. O MS repassava os recursos
para que os municípios procedessem à compra desses itens e
os distribuíssem por intermédio da rede de saúde.
O PCDMI institui um critério biológico de inclusão
(risco nutricional), ao contrário de programas anteriores,
cujo critério seletivo era a renda. A estratégia de
atender aos segmentos mais biologicamente vulneráveis
representa um avanço no sentido de concentrar as intervenções
nos grupos com maior chance de resposta à intervenção
(CASTRO, 1996). No entanto, cabe considerar que esse tipo de
critério incide apenas sobre um quadro já instalado de
desnutrição e exclui crianças em situação de risco limítrofe
(que podem evoluir para um quadro mais severo) ou que
residem na mesma localidade e, por vezes, estão sujeitas a
privações semelhantes.
A seleção dos beneficiários era feita pela equipe de
saúde na rede básica de atenção, e, para tal, o município
deveria dispor de Sistema de Vigilância Alimentar e
Nutricional (Sisvan), que tem como objetivo monitorar o
estado nutricional dos usuários dos serviços de saúde,
possibilitando atendimento diferenciado aos grupos vulneráveis
(CASTRO, 1996).
Ter o Sisvan implantado significa que ao menos as informações
antropométricas (peso, estatura e idade) dos diferentes
grupos atendidos na rede de saúde municipal (crianças,
gestantes, adultos e idosos) são coletadas, sistematizadas
e enviadas para o governo estadual, que, por sua vez, as
envia para o federal. No entanto, isso não significa que
todas as unidades de saúde da rede coletem, registrem e
encaminhem as informações, nem abarquem todos esses
grupos-alvo.
Avaliação de programas
Uma avaliação nacional da implantação do PCDMI
indicou falhas na aplicação dos critérios de inclusão e
exclusão dos beneficiários, em parte decorrente da técnica
inadequada de pesagem e da baixa qualidade dos equipamentos
de aferição. Deficiências na área de recursos humanos
foram marcantes, incluindo a desinformação em torno do
programa. A implantação do Sisvan não foi cumprida por
80% dos municípios conveniados, e o papel dos governos
estaduais foi extremamente frágil, limitando-se aos
aspectos burocráticos (TADDEI et al., 1996). Quanto ao ICCN,
identificou-se uma cobertura pequena (atendimento médio de
40% da clientela prevista), sendo que os principais motivos
alegados pelos municípios foram alto preço do leite e óleo
(e o não-reajuste dos valores repassados pelo MS) e a
inexistência de crianças desnutridas até 23 meses
(BRASIL, 2001).
O processo de implementação é comprometido por
fragilidades institucionais das secretarias municipais e
estaduais, tais como: estrutura de gestão; equipamentos
(balanças etc.); alta rotatividade de pessoal e número
reduzido de profissionais, que contribuem para um uso
ineficiente dos recursos e constrangem a implementação do
critério seletivo adotado. O percentual de crianças
desnutridas captadas pela rede de saúde por vezes é baixo
pelo número ainda reduzido de unidades de saúde com Sisvan
implantado. Em algumas delas, os dados antropométricos não
são coletados e sistematizados ou, por vezes, são
coletados apenas em alguns setores, como, por exemplo, na
consulta pediátrica, mas não no setor de vacinação (BURLANDY,
2002).
Ainda que esse quadro venha sendo modificado e sejam
desenvolvidos esforços de formação de profissionais e
implementação do Sisvan, a expansão da vigilância
nutricional ainda deve ser priorizada, por tratar-se de
instrumento estratégico para captação de beneficiários e
planejamento de políticas públicas.
Residentes das áreas periféricas dos municípios, que
constituem os segmentos mais vulneráveis biológica e
socialmente, permanecem em grande parte excluídos dos
principais canais de acesso aos programas sociais. Isso
ocorre pela distância das localidades centrais onde se
concentram os serviços, por dificuldades de transporte, de
inserção em redes de apoio social e político. Essa situação
se agrava quando a população rural é expressiva, pois,
por não ser informada a tempo sobre os processos de captação
de beneficiários para os programas, acaba sendo preterida
em detrimento de grupos em situação mais favorável (BURLANDY,
2002).
O Programa de Agentes Comunitários de Saúde e o
Programa de Saúde da Família, por serem operacionalizados
por atendimento domiciliar, potencialmente contribuiriam
para captação dos segmentos populacionais que não freqüentam
as unidades de saúde. Mas sua cobertura ainda é baixa
(BRASIL, 1999).
As fragilidades da estrutura de gestão dos governos
estaduais, identificadas no PCDMI, também se colocam para o
ICCN, como: equipe reduzida; ausência ou dificuldade de
utilização de recursos destinados à supervisão nos municípios;
falta de veículos e verbas para locomoção (BRASIL, 2001).
Essas informações indicam que a situação encontrada no
início da década de 90 ainda não se reverteu
satisfatoriamente e decerto compromete tanto o suporte técnico
por parte dos governos estaduais aos municípios como o
acompanhamento do uso dos recursos no nível local. O
fortalecimento político-institucional das secretarias
estaduais de saúde é, portanto, outro imperativo.
O processo de monitoramento desses programas envolve também
as instâncias de controle social, como o Conselho Nacional
de Saúde (CNS), conselhos estaduais e municipais (CMS),
compostos paritariamente por representantes de usuários,
gestores e prestadores de serviços de saúde. Considerando
o caráter intersetorial da política de saúde, comissões
internas ao CNS foram criadas no sentido de estabelecer o diálogo
com os setores que se situam nas áreas de interseção com
essa política. Dentre elas, destaca-se a Comissão
Intersetorial de Alimentação e Nutrição (Cian), que tem
como atribuição subsidiar o CNS na avaliação,
operacionalização e acompanhamento da implementação da
Política Nacional de Alimentação e Nutrição.
O CMS tem como função aprovar e acompanhar o projeto
municipal de implantação do programa, mas em geral não
dispõe de Cian. Limites em seu funcionamento foram
identificados por uma pesquisa avaliativa do ICCN: do total
de conselheiros entrevistados, apenas 57% informaram
participar de algum acompanhamento das ações do ICCN,
52,8% relataram que o CMS participou da aprovação do plano
municipal, e, em 63% dos casos, não houve nenhum tipo de
participação em sua formulação (BRASIL, 2001). Cabe
considerar que a implementação dessas arenas é
relativamente recente e fruto de um processo de
amadurecimento nas relações sociais e na redistribuição
do poder local.
Lições da década
O MS vem implementando desde 2001, em substituição ao
ICCN, o Programa Bolsa-Alimentação (PBA), que destina um
montante de R$ 15/mês para crianças de 6 meses até 6 anos
e 11 meses, gestantes e nutrizes em risco nutricional que
pertençam a famílias com renda per capita de até meio salário
mínimo por mês. A mãe – ou o(a) responsável pela criança
– recebe um cartão magnético da Caixa Econômica Federal
por meio do qual procede à retirada do dinheiro. Cada família
pode receber no máximo R$ 45 (três bolsas), e sua permanência
no programa está condicionada ao cumprimento de uma agenda
de compromissos, qual seja: atendimento pré-natal, ações
educativas, acompanhamento do crescimento e desenvolvimento
da criança, amamentação e vacinação (BRASIL, 2002).
As principais modificações do PBA em relação ao ICCN
no que se refere à seleção dos beneficiários são: o público-alvo
foi ampliado (atendendo crianças de até 6 anos) e houve
mudança nos critérios de inclusão no programa (sendo critérios
básicos a renda e a situação de risco nutricional da família
como complementar), associados a outros indicadores sociais
como tipo de moradia, número de cômodos do domicílio
escolaridade da mãe etc.; o estado nutricional não é mais
critério de desligamento do beneficiário, considerando
que, quando a criança é excluída do programa por não
estar mais situada nos limites de risco nutricional
estabelecidos como critério seletivo, diversos problemas se
colocam, como a reincidência do problema. No caso do PBA, o
benefício pode ser recebido por no mínimo seis meses, e a
suspensão ocorre apenas quando o cadastrado não cumprir a
agenda de compromissos assumida ou quando a renda mensal per
capita da família for alterada, de forma que ultrapasse o
limite estabelecido.
A análise do orçamento da União para 2001 indicou um
cancelamento de parte dos recursos orçados para o programa
(CNS, 2002), principalmente porque os municípios não
conseguiram cadastrar os beneficiários.
O PBA se insere na rede de proteção social do governo
federal (1998–2002), integrada por um conjunto de
programas voltados para famílias com a mesma faixa de
renda. Foi instituído o Cadastro Único de Beneficiários,
e o cadastramento das famílias pode ser feito a partir de
qualquer secretaria responsável pela implantação de um
dos programas da rede. Dessa forma, a possibilidade de captação
se amplia, uma vez que diferentes secretarias podem proceder
ao cadastramento potencializando seus recursos por meio de
mecanismos de articulação intersetorial. No entanto, a
implantação desses mecanismos é complexa e de difícil
operacionalização para alguns municípios.
Cadastros
Os problemas de cadastramento dizem respeito aos fatores
evidenciados nas avaliações dos programas anteriores,
quais sejam: fragilidades do Sisvan, captação de segmentos
não inseridos nas redes e limites na capacidade
institucional dos municípios e dos estados para monitorar o
processo e evitar distorções. Dadas essas dificuldades, as
informações sobre o estado nutricional podem ser
desconsideradas no processo seletivo, prevalecendo o critério
da renda, cuja informação dificilmente é comprovada.
Os sistemas do cadastro único e do monitoramento dos
beneficiários do PBA exigem treinamento e pessoal para
digitação. O caráter recente do processo e o suporte
diferenciado que os governos estaduais vêm dando aos municípios
contribuem para esse quadro. Por se tratar de um cadastro
que inclui diversas informações sobre as famílias, o
procedimento se torna complexo, o que não necessariamente
deva significar que o sistema seja descartado. A conjugação
de diferentes variáveis seletivas pode contribuir para
identificar o perfil diferenciado das famílias. De igual
modo, uma seleção que combine esses critérios com uma
seletividade geográfica tende a ser mais efetiva. Por meio
de uma atenção especial aos residentes em áreas onde não
há disponibilidade adequada de bens e serviços públicos,
é possível captar os grupos mais vulneráveis.
Caso não sejam implementados mecanismos eficazes de
monitoramento e auditoria por parte do governo federal e dos
governos estaduais, as possíveis irregularidades no
cadastramento não serão identificadas. Dessa forma, os
recursos podem ser repassados sem que haja controle sobre
sua utilização, possibilitando uso político e distorções
de todo o tipo que tendem a prejudicar ainda mais os grupos
mais vulneráveis que possuem menor acesso aos canais de
influência.
Mecanismos públicos de denúncia de violação de
direitos são também fundamentais. De igual modo, caso os
conselhos não se fortaleçam como instâncias de efetivo
controle social, o acompanhamento do programa por parte
dessas instâncias será ineficaz. Os conselhos municipais não
dispõem de comissões intersetoriais como a Cian, e, como
tratam de questões bastante diversas, referentes à política
de saúde, a existência dessas comissões subsidiaria o
manejo de temáticas específicas como a nutrição.
Há, ainda, as oscilações nos custos dos alimentos que
recaem sobre o beneficiário, quando o valor dos recursos
transferidos não é atualizado. O poder de compra pode
variar tanto no tempo (períodos de desvalorização da
moeda) como entre regiões e localidades. Os grupos que
tendem pagar mais caro pelos produtos, por comprarem de
forma financiada em pequenos estabelecimentos comerciais, são
aqueles mais vulneráveis e que residem em áreas onde o comércio
é escasso, dificultando a maximização do uso da renda.
* Luciene Burlandy é nutricionista, doutoranda da Fundação
Oswaldo Cruz, professora da Faculdade de Nutrição da
Universidade Federal Fluminense e integrante da Secretaria
Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e
Nutricional (FBSAN). <burlandy@uol.com.br>
1 Artigo elaborado a partir de texto apresentado em
evento na FAO (Food and Agriculture Organization of the
United Nations) em 15 de janeiro de 2003.
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