DICAS
Da Coordenação
Nacional da Pastoral da Criança
As Coordenaçoes Paroquiais, de Áreas, Diocesanas e
Estaduais
MAIO DE 2.000 - nº 14 (2ª edição)
Alimentação
Enriquecida
Alguns cuidados importantes
Há mais de 15 anos, a Pastoral da Criança vem orientando
as famílias acompanhadas para o uso de uma Alimentação
Enriquecida.
Trata-se de enriquecer a alimentação do dia a dia, com a
maior variedade possível de alimentos disponíveis
na própria região. A isso chamamos de
"multimistura de alimentos".
Além da variedade de alimentos, a Pastoral da
Criança ensina as mães a acrescentarem na comida
diária de sua família uma mistura feita com farinhas
de cereais, farelo de trigo e de arroz, pós de
folhas
verde-escuras, de sementes e de casca de ovo.
Chamamos isso de farinha multimistura.
A Pastoral da Criança
recupera da desnutrição milhares
de crianças e gestantes todos os anos.
Para isso, utiliza essa orientação alimentar
junto com as ações básicas de saúde, nutrição,
educação e cidadania. Além disso, encaminha crianças
e gestantes ao serviço de saúde para tratar as doenças
associadas à desnutrição. Esse trabalho é realizado com
muito amor, carinho e compromisso por milhares de voluntários
que se dedicam a salvar vidas e semear esperança por todo
Brasil.
Quais são
as novidades?
À medida que mais
comunidades da Pastoral da Criança passaram a utilizar a
farinha multimistura como um recurso para melhorar a
alimentação das famílias, algumas universidades
realizaram estudos para avaliar o valor nutritivo dessa
multimistura. Também procuravam alertar para os cuidados
com o uso de algumas substâncias contidas na folha de
mandioca e nos farelos de trigo e de arroz, além de mostrar
a importância da higiene.
A multimistura é um grande aliado da Pastoral da
Criança para salvar vidas no Brasil inteiro. Até hoje,
jamais se teve conhecimento de alguma criança, gestante,
adulto ou idoso que tenha comido a multimistura e tido
efeito prejudicial a sua saúde. Ao contrário, só temos
tido notícias positivas. No entanto, sabemos dos perigos
que os alimentos mal preparados podem causar à saúde e não
devemos esperar que alguma coisa aconteça para tomar os
primeiros cuidados.
Por isso, neste Dicas, vamos responder a alguns
questionamentos levantados para dar suporte e incentivar
nossa grande luta contra a desnutrição e a mortalidade
infantil. Vamos conversar sobre o jeito de preparar os
ingredientes da multimistura, como aproveitar melhor os seus
nutrientes e os cuidados com a higiene.
O que é
fitato e o que ele faz no nosso corpo?
O fitato é um
composto que está naturalmente presente nas leguminosas
como feijão, ervilha, lentilha, grão-de-bico, em algumas
nozes e também nos cereais como arroz, trigo, milho, aveia,
centeio e seus farelos.
Quando ingerimos alimentos que têm fitato, esse
composto se liga a sais minerais como o zinco, ferro e cálcio
no nosso intestino, impedindo que o corpo aproveite bem
estes nutrientes. Por este motivo, o fitato é chamado de
antinutriente. Para podermos aproveitar melhor os nutrientes
tão ricos para a saúde, precisamos tornar inativo o fitato
desses alimentos.
Como
diminuir o fitato dos alimentos?
Durante a digestão já
ocorre uma pequena diminuição do teor de fitato presente
nos alimentos. Isto acontece porque uma enzima que existe
nos alimentos e também em nossa flora intestinal é responsável
pela “quebra” do fitato, fazendo com que diminua o seu
poder antinutriente.
É necessário, no entanto, utilizar outros
procedimentos no preparo do farelo para eliminar o fitato.
Durante a preparação dos alimentos, podemos diminuir o
fitato das seguintes formas:
- por meio do calor -
sempre que utilizamos o farelo em preparações onde ele
é torrado, assado, cozido ou frito estaremos diminuindo
a quantidade de fitato, porque o calor é capaz de fazer
essa modificação. O calor que mais elimina o fitato é
o cozimento. Por este motivo, é necessário que os
farelos sejam cozidos junto com os outros alimentos que
se deseja enriquecer, como arroz, feijão, mingau, sopas
e outros alimentos. A torrefação do farelo não tem
grande poder de eliminar o fitato. No entanto, devemos
continuar a torrar o farelo para eliminarmos boa parte
da umidade e dos micróbios presentes nesse alimento. E,
torrado, o alimento se conserva por mais tempo.
- fermentação - o
fermento biológico usado para fazer o pão, ajuda a
diminuir o fitato presente nos farelos. Quanto maior o
tempo de fermentação, menos fitato terá o pão.
- germinação - durante a
germinação dos grãos, o fitato é transformado em
compostos que são úteis para o nosso desenvolvimento.
Os brotos são alimentos vivos, possuindo alto teor de
nutrientes.
- impregnação - é
deixar o alimento de molho. Para reduzir a quantidade de
fitato é bom deixar o alimento de molho. O tempo ideal
é 12 horas. Não deixe passar disso porque quando o
alimento fica de molho por mais de 12 horas, o fitato
acaba voltando para dentro do alimento.
É uma riqueza muito grande a
gente saber utilizar bem os alimentos. É o sucesso que
precisamos incentivar e observar em detalhes.
Portanto, além de torrar o
farelo, é importante também cozinhá-lo para aproveitarmos
melhor os nutrientes. Ao comprar farelos de trigo e de arroz
é importante dizer que é para consumo humano e perguntar
de onde veio. Se for possível, compre o farelo diretamente
do moinho ou usina, evitando intermediários, que talvez não
se preocupem tanto com a higiene dos farelos.
Procure obter o farelo mais
novo, ou seja, quando estiver saindo da máquina. Dentro de
24 horas, você deve peneirar e torrar este farelo para
evitar que fique rançoso, diminuindo a umidade e a
contaminação. A quantidade de farelo para torrar na panela
deve ser de no máximo 1/3 da capacidade da panela. O farelo
deve ser torrado por um tempo entre 20 e 25 minutos, em
chama baixa, mexendo sempre, de preferência com colher de
pau. Deixe o farelo torrado esfriar. O recipiente onde se
coloca o farelo deve ser lavado com água e sabão e
desinfetado da seguinte maneira: prepare uma solução com
duas colheres de sopa de hipoclorito de sódio a 2,5% ou água
sanitária para cada litro de água; umedeça um pano limpo
nessa solução, esfregue na parte interna da vasilha e
deixe secar.
Não é aconselhável
comprar farelo em casas de ração. Este farelo pode estar
sujo e contaminado. Não serve para consumo humano.
Vamos ajudar nosso corpo a
aproveitar melhor os minerais?
Os sais minerais e as
vitaminas são nutrientes indispensáveis para o
funcionamento do nosso organismo. São encontrados
principalmente nas hortaliças e nas frutas. Eles também
ajudam na prevenção de muitas doenças e devem fazer parte
da nossa alimentação de todo dia. Para que o nosso corpo
absorva melhor o ferro dos alimentos, combatendo assim a
anemia, devemos comer em cada refeição alimentos ricos em
vitamina A e vitamina C:
- frutas: goiaba, limão,
laranja, abacaxi, acerola, caju, mamão, banana, manga,
kiwi e outras;
- folhas verde-escuras:
batata-doce, caruru, couve, bredo, bertalha, beldroega,
taioba, salsinha, coentro e outras;
- hortaliças amarelas e
alaranjadas, como a cenoura e a abóbora.
Outras fontes de vitamina A são
o azeite-de-dendê, os ovos, o leite, o fígado e outras.
A vitamina C é destruída quando cozinhamos os alimentos e
também quando preparamos com antecedência. Assim, devemos
dar preferência aos alimentos frescos e crus (saladas,
frutas e sucos de frutas feitos na hora de consumir) se
quisermos ter esta vitamina.
Quanto mais forte for a cor
dos vegetais,
mais ricos em vitaminas e sais minerais eles são.
Para melhorar a absorção
do zinco devemos consumir alimentos ricos em proteína. Os
alimentos mais ricos em proteína são:
- os cereais: milho,
arroz, trigo, aveia, centeio e outros;
- as leguminosas: feijão,
soja, ervilha, lentilha, grão-de-bico, fava e outros
- as sementes: gergelim,
abóbora, girassol, melão e outras;
- as oleaginosas:
amendoim, nozes, castanha-do-pará, castanha-de-caju
e outras.
- os de origem animal:
carnes, peixes, leite, ovos e queijos.
A vitamina D ajuda o organismo a absorver o cálcio
dos alimentos. Encontramos vitamina D na gema do ovo, fígado,
manteiga, peixes gordos, óleo de fígado de bacalhau,
frutos do mar e outros. Os raios solares, especialmente nas
primeiras horas da manhã e diretamente na pele das pessoas,
são importantes para que a vitamina D seja ativada e melhor
aproveitada pelo corpo.
As vitaminas A, C e D, as proteínas e outros nutrientes são
chamados de facilitadores porque ajudam o corpo a absorver
melhor os nutrientes.
Nenhum alimento é completo. Um alimento pode ser rico
em uma das vitaminas e pobre em outras, ou rico em cálcio e
pobre em ferro. Por isso, nossa alimentação deve conter
uma variedade de alimentos, pois uns completam os outros. Se
a gente olha para um prato de comida e ele tem alimentos de
muitas cores, temos um sinal de variedade de nutrientes.
Esta variedade ajuda a pessoa a ter mais saúde.
Portanto, vamos seguir as orientações para que crianças,
adolescentes, gestantes, adultos e pessoas idosas tenham boa
saúde e se sintam muito bem.
A folha
de mandioca
A folha de mandioca
é rica em proteína, vitamina A, ferro, cálcio, vitamina C
e fósforo. As pessoas que vivem no Norte do Brasil têm o
costume de utilizar as folhas da mandioca cozidas junto com
outros alimentos. No Pará é preparado um prato chamado de
maniçoba que além de lingüiça, lombinho, carne de porco,
leva uma grande quantidade de folhas de mandioca moídas.
Na África, as pessoas utilizam a folha da mandioca picada e
cozida junto com o feijão, a carne ou os legumes.
A folha de mandioca ao natural, crua, contém
compostos tóxicos que quando ingeridos transformam-se em ácido
cianídrico e essa substância pode levar uma pessoa
à morte. No entanto, as folhas também possuem grande
quantidade da enzima que é responsável pela remoção
desses compostos. Para garantirmos um bom uso dessa folha tão
rica em nutrientes, e sem correr risco algum, é necessário
processarmos as folhas adequadamente.
A EMBRAPA -Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias-
procurando contribuir com o trabalho desenvolvido pela
Pastoral da Criança, realizou diversos estudos dosando a
quantidade de ácido cianídrico que restava em várias
amostras de folhas de mandioca preparadas de diversas
formas. Esses estudos mostraram que para diminuir o ácido
cianídrico das folhas de mandioca, estas devem ser
preparadas da seguinte forma:
Após a colheita e a lavagem, as folhas devem ser
primeiro picadas e só então levadas para secar. Depois
devem ser transformadas em pó. Isto é necessário porque
quando picamos as folhas frescas estamos fazendo com que a
enzima entre em contato com os compostos tóxicos,
removendo-os.
Quando secamos ou cozinhamos folha de mandioca
eliminamos a vitamina C. No entanto, estes procedimentos são
necessários para que os tóxicos sejam removidos das
folhas. Devemos obter a vitamina C de outras fontes como
saladas cruas, frutas e sucos de frutas feitos na hora de
consumir.
A casca
do ovo
Há muito tempo se
sabe que a casca de ovo é uma excelente fonte de cálcio. O
que não se sabia era se esta forma de cálcio seria bem
absorvida pelo corpo humano. As pesquisas realizadas
confirmam que o cálcio da casca de ovo é absorvido muito
bem. Nosso corpo precisa apenas de pequena quantidade de cálcio
e este nutriente está presente nos alimentos como as
sementes, as folhas verde-escuras, os cereais integrais, o
leite, os queijos, a casca de ovo e outros.
Quando ingerimos grande quantidade de cálcio, ele
acaba prejudicando a absorção do ferro. Por isso, uma
pitada de pó de casca de ovo já é suficiente para
enriquecer a nossa alimentação do dia a dia. No entanto, a
casca de ovo pode conter um micróbio que causa um tipo
grave de diarréia, conhecido como salmonela. Por este
motivo os ovos devem ser lavados antes de serem quebrados.
As cascas devem ser limpas e guardadas na geladeira até o
dia da preparação do pó. Para desinfetar, deixe as cascas
de molho numa solução de água com hipoclorito de sódio a
2,5% ou água sanitária por 20 minutos.
Use sempre a medida de uma
colher de sopa de água sanitária
ou hipoclorito de sódio para cada litro de água.
Depois, enxágüe bem
em água limpa, coloque as cascas numa panela e ferva por 20
minutos. Seque as cascas ao sol, cobrindo com um pano fino
para evitar poeira e insetos. As cascas podem ser secadas em
forno brando, mas deve-se cuidar para que não torrem.
Outros cuidados importantes
na preparação da farinha multimistura
Sempre que preparamos
um alimento em nossa casa ou numa cozinha comunitária,
precisamos nos preocupar com a higiene:
- antes de começar a
preparar os alimentos é preciso lavar bem as mãos,
estar com as unhas curtas e limpas e com a roupa limpa;
- quem está cozinhando não
deve pegar em dinheiro, em animais ou fumar. A mesa, o
balcão, a pia e o fogão devem estar limpos, e em bom
estado de conservação, sem depressões, fendas ou
buracos onde acumulem a sujeira ou restos de alimentos,
pois isto pode contaminar os alimentos;
- tudo que for utilizado
(colheres, pratos, bacias, panelas, facas) deve estar
bem limpo;
- os alimentos devem estar
cobertos e tampados.
É importante que as pessoas que trabalham diretamente
com a produção de alimentos, seja em escala comunitária
ou industrial, estejam bem de saúde. As pessoas que
apresentam cortes nas mãos, doenças na pele ou doenças
infecto-contagiosas, não devem manipular alimentos porque há
um grande risco de contaminar os alimentos. Outros cuidados
importantes:
- evitar o uso de jóias
e manter os cabelos amarrados ou protegidos com um lenço;
- desviar a cabeça do
alimento ao espirrar, tossir ou falar;
- a lixeira deve ser
mantida tampada e o lixo, reciclado, enterrado ou
queimado, para evitar moscas, insetos, ratos, etc;
- animais não devem estar
presentes no local onde são preparados os alimentos;
- o local onde se prepara
os farelos, os pós de folha de mandioca, as sementes e
casca de ovo deve ser ventilado e arejado;
- pisos, paredes e teto
devem estar bem limpos;
- depois de pronta, a
multimistura, deve ser armazenada em vasilhas limpas: de
preferência de vidro ou em sacos plásticos limpos.
A Alimentação Enriquecida é boa para todas as pessoas e
por isso deve fazer parte da alimentação do dia a dia de
toda a família.
Os alimentos regionais devem ser valorizados porque são
encontrados mais facilmente, já fazem parte do hábito das
pessoas e costumam ser mais baratos.
DICAS é um informativo técnico dirigido as Equipes de
Coordenação da Pastoral da Criança. Se você tiver alguma
sugestão de tema ou dúvida, escreva para:
Coordenação Nacional da
Pastoral da Criança
Rua Jacarezinho, 1691
Curitiba/PR CEP 80810-900
Fax: (41) 336-9940
E-mail: pastcri@rebidia.org.br